Comentários ao artigo da Carta Capital sobre o Centro

No post anterior publiquei um artigo da revista Carta Capital sobre o Centro Paula Souza. Neste quero enumerar algumas questões importantes que não foram abordadas pelo jornalista Rodrigo Martins. Para isso, reproduzo literalmente o "comentário" que fiz ao final do artigo no site da Carta Capital:
Olá, sou professor de duas ETECs de Campinas e também gostaria de fazer coro com os colegas sobre a importância deste artigo. Depois de tantos anos de propaganda mentirosa por parte do PSDB sobre o Centro Paula Souza, seu instrumento eleitoral, finalmente uma matéria que apontasse para uma discussão séria. Mas, após os elogios, seguirei o caminho de Miranda, pontuando alguns limites desta matéria (pois assim acredito que aprofundaremos na reflexão):
1. Tenho total acordo com a crítica de Miranda. O Centro Paula Souza não é composto apenas de professores, mas também de funcionários tecnico-administrativo. Diria mais, também é composto de funcionários terceirizados, que realizam em cada unidade de trabalho a manutenção, a limpeza, a segurança, etc tão necessária para o funcionamento desta instituição. E a terceirização segue sendo um grande problema para qualquer categoria, pois além de precarizar o trabalho (dando um salario infinitamente menor que o de um funcionário efetivo que realiza a mesma tarefa), nos divide entre efetivos (ou indeterminados) e terceirizados.
2. O artigo não leva em consideração que o Centro Paula Souza é uma autarquia do estado de SP que funciona de forma completamente antidemocrática. Seus cargos de direção são ocupados sem que haja critério algum na sua seleção (apenas o apadrinhamento), muito menos eleição. Discute-se tanto a meritocracia, a avaliação dos professores e funcionário, mas pergunto: quem avalia a superintendente Laura Laganá (que não teve coragem de responder as perguntas desta reportagem)? Os professores e funcionários passaram num concurso público, concorrido, para ocuparem o cargo que ocupam hoje. E aqueles que estão hoje na Superintendencia foram aprovados em que processo?
3. o artigo também não associou dois fatos que ocorreram simultaneamente. Nestes ultimos anos não recebemos nenhum aumento salarial. E também neste período o Centro teve a sua maior ampliação de vagas e de unidades da história (com várias unidades fictícias – as extensões). Conclusão: a ampliação do Centro ocorreu sob a base do arrocho salarial dos professores! Objetivo: garantir a manutenção do PSDB no poder do estado de SP.
Por enquanto, acho que estes são os pontos fundamentais que faltaram no artigo. Mas, como eu disse, ele tem o seu mérito por ter sido o primeiro a questionar a “inquestionável” política do governo de SP para as escolas e faculdades técnicas. Valeu pelo artigo!
Nos próximos dias seguirei postando artigos e comentários sobre o Centro Paula Souza, pois estamos em momento de reflexão e de luta. Em várias unidades já aprovamos greve por tempo indeterminado a partir do dia 13/05.

Interessante matéria de Carta Capital sobre Centro Paula Souza

A “meritocracia” do ensino paulista

Escrito por: Rodrigo Martins



Sem reajuste salarial desde 2005 e descontentes com os critérios usados para o pagamento da chamada “bonificação por resultados”, professores das escolas técnicas (Etecs) e faculdades de tecnologia (Fatecs) do estado de São Paulo ameaçam entrar em greve a partir de maio. De acordo com Silvia Elena de Lima, secretária-geral do Sinteps, o sindicato da categoria, a proposta tem sido debatida em assembleias regionais nas mais de 200 unidades da rede. Caso seja aprovada, a paralisação começaria em 13 de maio.

Nossa última greve, em 2004, durou 80 dias. Foi graças a ela que conseguimos reajuste no ano seguinte”, avalia. “De lá para cá, o governo tem usado a bonificação como desculpa para não mexer nos salários. Só que os critérios desse bônus são confusos e punem o professor por aspectos que não dependem dele.”

Entre 2000 e 2006, o governo paulista oferecia o chamado “bônus mérito” para estimular a atividade docente. O pagamento premiava, na verdade, professores assíduos, com mais tempo de casa e bem avaliados pelos gestores das escolas. A partir de 2007, o sistema foi substituído pela bonificação por resultados, que passou a agregar critérios de produtividade, como a aprovação dos alunos e a evasão escolar. Além disso, criou-se o Sistema de Avaliação Institucional, no qual alunos, professores e funcionários respondem a um extenso questionário para avaliar a qualidade de ensino e as condições de infraestrutura das unidades.

O governo tem todo o interesse de que o número de formandos seja o maior possível, porque a repetência gera mais gastos para o sistema”, afirma Antonio Pereira Afonso, diretor interino da Etec Getúlio Vargas, na zona sul de São Paulo. “Por trás dessa política de bonificação, há, porém, uma estratégia de ‘forçação de barra’, de aprovar aluno a qualquer custo, mesmo que ele não tenha desempenho satisfatório. Além disso, a evasão escolar e o déficit de aprendizagem não dependem apenas do docente. Normalmente estão associados a outros fatores externos à escola, como problemas familiares ou necessidade de trabalhar.”

Em 2011, os professores da Etec Getúlio Vargas tiveram um bônus de 2,4 salários, índice muito superior ao oferecido nos últimos dois anos, quando os docentes receberam menos de um salário a título de bonificação. O que mudou? “De fato, podem ter -contribuído os mutirões feitos por professores na tentativa de recuperar alunos irrecuperáveis. Mas, na prática, isso também se deve ao acaso. Menos alunos desistiram dos cursos”, avalia Afonso.

Doralice de Souza Balan, diretora da Fatec de Bragança Paulista, uma das oito faculdades de tecnologia que não receberão bônus em 2011, critica a falta de critérios claros no pagamento do benefício. “Desde fevereiro, requisitamos informações ao Centro Paula Souza (órgão estatal responsável pela administração das escolas técnicas e Fatecs) para saber exatamente a meta que precisávamos cumprir, mas ainda não recebemos resposta”, afirma. “Estamos no limbo, sem saber no que erramos, se é que erramos. Um dos pontos avaliados é a infraestrutura da escola, mas isso é de responsabilidade exclusiva do governo. Como a unidade é nova, compartilhamos o prédio de uma escola municipal até o nosso ficar pronto. É evidente que há insatisfação com as instalações inadequadas, mas quem resolveu expandir a rede antes de oferecer todas as condições não foram os professores.”

Do quadro de 22 docentes da Fatec São Sebastião, no litoral norte, três abandonaram a instituição no último ano para lecionar em escolas privadas ou universidades federais. “O plano de carreira deles é mais vantajoso e os salários, melhores”, explica Balan.

O coro dos descontentes é engrossado por Silvana dos Santos de Marchi, diretora acadêmica da Fatec São Sebastião, criada em 2009. “Dividimos espaço com uma escola técnica. Faltam laboratórios, biblioteca, os banheiros estão superlotados. Mas essa é uma situação excepcional, até o prédio da faculdade ficar pronto”, lamenta. “O que deveria incentivar o professor está se tornando um fator de desestímulo. É injusto o docente não receber bônus por causa da infraestrutura, porque houve pouca aprovação ou muitos alunos desistiram do curso. Isso é normal em qualquer faculdade.”

A gestora também critica a falta de comunicação da administração central com as unidades de ensino. “O Centro Paula Souza divulgou as metas de cada escola ou faculdade um dia antes de o governo estadual publicar, no Diário Oficial, os índices de bonificação para cada instituição. É uma aberração. Quando é traçado um objetivo, o razoável é que todos saibam o que é e tenham um ano para tentar alcançá-lo.”

Diversos professores ouvidos por CartaCapital criticaram ainda o baixo valor do vale-refeição (4 reais por dia) e dos descontos da bonificação por faltas justificáveis, como licenças médicas e a chamada “licença-prêmio”, na qual o profissional é recompensado por não faltar nenhuma vez durante cinco anos. “No ano passado, tive de ficar afastado da escola por quatro meses em razão de uma cirurgia no joelho. E, neste ano, só pude receber dois terços da bonificação”, afirma Afonso, da Etec Getúlio Vargas, que lecionava disciplinas de eletroeletrônica antes de assumir a direção da escola.

Procurada por CartaCapital, a superintendente do Centro Paula Souza, Laura Laganá, alegou problemas na agenda ao recusar o pedido de entrevista. Por meio de nota, a assessoria de imprensa da instituição disse que “está em elaboração um novo Plano de Cargos e Salários para valorizar o salário dos professores”. As alterações de valores dependem, no entanto, de previsão orçamentária e aprovação na Assembleia Legislativa. Além disso, a nota informa que os parlamentares aprovaram, em 2008, um novo plano de carreira com reajuste médio de 49% no valor da hora-aula paga aos professores.

Especialista em avaliação, Luiz Carlos de Freitas, professor de Educação da Unicamp, contesta a própria existência da bonificação na educação pública. “Os reformadores empresariais acreditam que a educação é uma atividade como qualquer outra, passível de ser administrada pelos critérios da iniciativa privada. Ocorre que, no mercado, há ganhadores e perdedores, e os ganhadores não têm de se preocupar com os perdedores”, afirma. “No sistema de bônus, os testes ganham relevância extraordinária e acabam por corromper o processo social que tentam monitorar. Recentemente, Beverly Hall, superintendente do sistema educacional de Atlanta, na Geórgia (EUA), foi demitida após uma investigação que identificou fraude na avaliação de 58 escolas públicas. Em Nova York, John Klein deixou o cargo de superintendente, em junho de 2010, quando se descobriu que as altas notas que os alunos tiravam nas escolas estavam infladas. A escola não é uma pequena empresa.”

Jakob Von Gunten

JAKOB VON GUNTEN: um diário Robert Walser

"Na verdade, nós, discípulos ou pupilos, temos muito pouco que fazer, quase não nos dão tarefa nenhuma. Aprendemos de cor as regras que aqui vigem. Ou lemos o livro O que pretende a Escola Benjamenta para rapazes. Kraus, além disso, estuda francês por conta própria, porque línguas estrangeiras ou matérias semelhantes não integram nosso currículo. Temos uma única sala, que se repete sem cessar: "Como deve se comportar um rapaz". No fundo, nossa aula gira dessa única questão. Conhecimentos, não nos transmitem. Como já disse, faltam professores, isto é, senhores educadores e professores estão ou dormindo ou mortos; ou parecem estar mortos, ou petrificados - tanto faz, o fato é que não nos ensinam coisa nenhuma. Em lugar dos professores, que, por alguma razão singular, de fato parecem mortos ou cochilam, ensina-nos e nos governa uma jovem dama, a srta. Lisa Benjamenta, irmã do senhor diretor do instituto (...)" - Jakob Von Gunten: um diário de Robert Walser.

Grande ato contra os 47 anos do golpe reúne mais de 250 em São Paulo

“SIMBOLICAMENTE, COMEÇOU A HORA DE NÃO ESQUECER”


Grande ato contra os 47 anos do golpe reúne mais de 250 em São Paulo


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Fonte: http://www.ler-qi.org/spip.php?article2865

Na última sexta-feira, 1º de abril, o auditório da sede da APEOESP estava lotado. Com a presença de mais de 250 pessoas, realizou-se um comovente ato organizado pela LER-QI que teve como objetivo fundar uma nova tradição na esquerda, para colocar na ordem do dia a luta contra o golpe militar de 1964, contra a impunidade, pela abertura dos arquivos da ditadura e julgamento e punição de todos os torturadores e envolvidos, civis e militares, nos crimes da ditadura.

Com coordenação de Márcio Bárbio, professor da rede estadual e militante da LER-QI, a mesa foi composta pelo sociólogo e professor aposentado da USP Francisco (Chico) de Oliveira, Criméia de Almeida, sobrevivente da guerrilha do Araguaia e presa política durante a ditadura militar; Claudionor Brandão, demitido político da USP, diretor do Sintusp e militante da LER-QI e Gilson Dantas, médico, sociólogo, preso político durante a ditadura e militante da LER-QI.


Márcio Bárbio abriu o ato saudando a presença de toda a juventude e de todos os trabalhadores ali presentes, ressaltando tratar-se de um dia importante para dar passos adiante na necessária luta contra a impunidade, além de pedir uma salva de palmas em homenagem às lutas dos operários da construção civil que ocorrem nas obras do PAC que foi reprimida e teve a morte de três operários. Explicou aos presentes que foi convidado oficialmente junto à direção do PSTU do Rio de Janeiro que enviasse um representante dos 13 presos políticos do ato contra Obama que foi reprimido pela polícia do governador Cabral, para que pudéssemos aproveitar essa atividade e dar passos numa campanha nacional pela retirada de todos os processos que pesam sobre esses companheiros. Infelizmente não pudemos contar com nenhum companheiro visto que apesar de terem sido liberados da prisão estão impedidos de sair da cidade, ou seja, estão sitiados pelo governo Cabral e a justiça burguesa.

Tomaram a palavra para saudar o ato e expor suas opiniões o jornalista e escritor Celso Lungaretti, ex-preso político militante de direitos humanos; Miltão, do Movimento Negro Unificado; e Érico, da Liga Comunista. Dentre os presentes foram saudados o Professor Antônio Rago, da PUC-SP e da Fundação Santo André; a companheira Zezé, do Núcleo de Consciência Negra da USP, uma delegação de trabalhadores e trabalhadoras da USP e os diretores do Sintusp Marcelo Pablito, Diana Assunção e André Pansarini. O professor emérito João Adolfo Hansen, da USP, enviou desde a Califórnia uma saudação ao ato. Foi lida a saudação da Apropuc (Associação de Professores da PUC-SP) enviada pela professora Maria Beatriz Abramides, presidente da entidade. O ato também foi saudado por Heloísa Greco, do Instituto Helena Greco, de Belo Horizonte, Minas Gerais. Da Argentina, recebemos um vídeo com as combativas saudações de Elia Espen, das Mães da Praça de Maio, linha Fundadra, e de Victoria Moyano, filha de desaparecidos, integrante do Ceprodh e militante do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas).

Criméia Almeida iniciou as falas da mesa, aplaudida de pé pelo auditório, dizendo:“Parabenizo a promoção deste ato, e gostaria de pedir a vocês que continuassem a nossa luta, que é a luta pelo resgate da memória das vítimas desse país”. Também disse que “Se queremos liberdade, se queremos direitos, nós temos que se unir nessa luta pela abertura dos arquivos da ditadura”. Em seguida, o professor Chico de Oliveira afirmou que “Há 47 anos nós esquecemos a ditadura. A maior vitória da ditadura é este esquecimento. Este ato é muito importante porque ele está representando e dizendo que os derrotados não esquecerão. Quando os derrotados não esquecem, a coisa começa a girar. A derrota começa a mudar de lado. Este ato tem essa importância, que é sair do esquecimento, sair da sombra”. O professor encerrou sua fala dizendo: “Este é um ato simples, e o nosso público embora agradevelmente numeroso para um ato desse precisa ser muito mais, mas ele diz mais do que os que estão aqui. Ele diz que simbolicamente, começou a hora de não esquecer. Minha saudação aos companheiros da Liga pelo valor de sair da inércia e propor esse debate à sociedade brasileira. É disso que se trata se quisermos um dia poder com autonomia de classe contemplar o horizonte do socialismo”. Ambos expressaram seus pontos de vista sobre toda a temática do ato, que em breve estará na íntegra em nosso site. O auditório lotado, tendo à frente a juventude da LER-QI com uma importante delegação de estudantes e jovens trabalhadores de Franca, Marília, Rio Claro, Campinas, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Santo André respondeu combativamente: “Não esquecemos a ditadura, assassinatos e tortura!”.

Claudionor Brandão, ressaltou a ligação entre os tempos sombrios da ditadura e os resquícios desta forma ditatorial que sobrevivem até hoje, seja nos massacres à população pobre, seja na repressão policial às greves, nas ocupações militares nas favelas, ou na recente prisão de 13 manifestantes durante um ato contra a vinda de Barack Obama ao Brasil. Também denunciou a onda repressiva nas universidades estaduais paulistas, tendo ele como um dos principais perseguidos com sua demissão política pelo governo José Serra em 2008. Rafael Borges, pela juventude da LER-QI, chamou uma salva de palmas ao nosso camarada Polo Denaday, militante do PTS e jovem advogado do sindicato dos ceramistas de Neuquen e de direitos humanos que faleceu no último mês, e em seguida fez um entusiasmado chamado a todos os jovens que estavam naquele momento lutando contra a impunidade da ditadura passassem também a fazer parte de uma juventude revolucionária que luta pelos direitos democráticos, pela aliança operário-estudantil, contra o individualismo e a resignação da juventude, por uma verdadeira perspectiva revolucionária. Foi seguido pelos cantos combativos da juventude, que dizia "Pra acabar com a impunidade e punir torturador, abertura dos arquivos do regime repressor. U-NI-DA-DE, Unidade operário-estudantil, resgatando a memória nesse primeiro de abril".

Encerrando o ato falou Gilson Dantas, militante trotskista desde os anos 1960, num momento de auge do ato contra o golpe militar. Começou dizendo: “O que vou falar eu não li em livros de história. Nós que passamos por esse corredor polonês que foi a ditadura brasileira, falamos e sentimos ao mesmo tempo. Por isso vou me basear na história de um operário que viveu a ditadura e morreu nela, ele vai ser uma espécie de lembrete pregado no coração de cada um, porém escrito a sangue. É o operário Olavo Hansen, químico, que morreu em 1970.” Gilson resgatou a história de Olavo Hansen, militante trotskista na luta contra a ditadura, pela organização dos trabalhadores, para demonstrar que também na luta contra a ditadura havia distintas estratégias. “A estratégia mais brilhante que apareceu nesse país, era a estratégia proletária, organizando a classe trabalhadora, os aliados pobres, os camponeses, todos os oprimidos, negros, organizando um bloco com a classe operária como caudilho para colocar a ordem abaixo”.



Para explicar a história de Hansen, Gilson demonstrou como depois de assassinado pela ditadura seu ideal seguia vivo. “A primeira morte de Olavo Hansen foi física, morreu lutando e sonhando. Eu fui preso distribuindo panfletos contra a morte de Olavo Hansen. Quando a classe operária levanta a cabeça nas greves que Lula vai liderar, eis que Olavo Hansen se põe em movimento. Aí novamente ele morre, desta vez simbolicamente. Porque a classe se levanta, mostra potencial, uma transição pra outra coisa, com a sua cara, que não fosse costurada com a elite militar, buscando derrubar a ditadura com métodos proletários, mas nesse momento eis que costura-se um acordo por cima pra fazer uma transição pactuada onde o torturador vai ser igualado ao torturado, através da lei da anistia.”

O ato encerra-se com Gilson Dantas dizendo: “Este sistema policial não foi destruído, ainda que se avance na democracia formal. Eu encerro dizendo que é importante este ato amplo, mas vai ter ainda mais cor e brilho na medida que conseguirmos organizar nos locais de trabalho, em fábricas, na aliança estudantil e operária, um movimento que tenha o poder de fazer tremer esta maquina policial e este estado terrorista que está de pé.”

Marcio Barbio encerrou o ato chamando todos os presentes a se colocarem de pé para gritarem juntos: Companheiros e companherias presos, torturados, mortos e desaparecidos, presente! Este ato, infelizmente, foi o único organizado pela esquerda, mas desde a mesa até o plenário se expressou o propósito de que seja o início de um movimento nacional contra a impunidade, pela abertura dos arquivos da ditadura, apuração, julgamento e castigo para todos os torturadores, mandantes, financiadores e apoiadores dos crimes da ditadura. A LER-QI e sua juventude se colocam nesta perspectiva para ser parte de um grande movimento para cumprir essa tarefa histórica. Por que não esquecemos, seguimos combatendo a ditadura!


LEIA TAMBÉM: Olavo, Eremias, Juarez e os outros mártires nos legaram uma missão (Artigo de Celso Lungaretti sobre o ato contra o golpe militar de 1964)

SAUDAÇÕES AO ATO

Heloisa Greco (Bizoca) do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – Belo Horizonte, Minas Gerais

No quadragésimo sétimo aniversário do golpe militar não há como não repetir o óbvio: o Estado brasileiro continua detendo giganteso arsenal para o exercício da violência, acumulado em processo histórico de longa duração. Temos no prontuário mais de trezentos e cinqüenta anos de escravidão e mais de quinhentos anos de opressão aos povos originários, hoje em fase final de extermínio. Tivemos ainda vinte e um anos de ditadura militar sangrenta, que veio para consolidar o terrorismo de Estado. O aparelho repressivo ubíquo e tentacular então montado segue operando sob a égide da violência explícita: o Estado Penal vigente é o sucedâneo do Estado de Segurança nacional dele sendo tributário. É este o terrível legado da ditadura militar, a qual não fabricou, mas institucionalizou a tortura transformando-a em política de Estado. Institucionalizou também a cultura do sigilo, a estratégia do esquecimento, a mentira organizada e a destruição continuada do espaço público. Tal legado não foi sequer equacionado, como mostram as seguintes evidências: a permanência da tortura enquanto instituição consolidada; a guerra generalizada contra os pobres; a interdição do dissenso e a criminalização dos movimentos sociais; a questão dos mortos e desaparecidos políticos; a impunidade – e, mesmo, a inimputabilidade - dos torturadores e assassinos de presos políticos e daqueles que cometem os mesmos crimes nos dias de hoje; a proibição do acesso aos arquivos da repressão. Ainda não conquistamos o direito à verdade, ao passado, à história e à memória enquanto dimensão básica de cidadania, o que passa necessariamente pela construção de uma Comissão de Verdade e Justiça independente e popular. Estas evidências constituem exemplo expressivo da sobrevivência da ditadura militar no pessimamente chamado Estado democrático de Direito. Esta situação de barbárie é potencializada pelo racismo sistêmico, em pleno vigor nas esferas militar, policial, judiciária e carcerária, exatamente aquelas que compõem a também mal chamada Segurança Púbica. A manifestação escabrosa desta situação é a generalização da guerra contra os negros e os pobres, o que leva à poliítica de encarceramento em massa e ao extermínio sistemático da população jovem e negra - trata-se de genocídio sistêmico, chamemos as coisas pelo próprio nome. Concluo saudando a iniciativa das companheiras e companheiros da LER-QI e reiterando que para nós, do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania o combate a esta situação de barbárie é necessária e ontologicamente uma luta contra-hegemônica. Entendemos que a luta pelos direitos humanos só pode ser travada na perspectiva classista da construção de mecanismos de contrapoder, contradiscurso e contramemória. A sua essência é o princípio da radicalidade. Como nos versos do nosso grande Carlos Drummond de Andrade: Do lado esquerdo carrego todos os meus mortos, Por isso caminho um pouco de banda. Saudações libertárias, um abraço fraterno para todas e todos, Heloisa Greco/ Bizoca (p/ Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania / IHG). Belo Horizonte, 1 de abril de 2011

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Maria Beatriz Abramides, presidente da APROPUC


A APROPUC-Associação dos Professores da PUC-SP vem saudar a iniciativa da LER-QI na realização deste importante debate, bem como a tod@s que estão presentes, debatedores e participantes deste ATO CONTRA O GOLPE MILITAR DE de 1964 e que repudia os 47 anos de impunidade contra os crimes da ditadura neste país. Nós militantes, trabalhadores, estudantes devemos continuar combatendo a ditadura o que significa lutar pelo fim do pacto da anistia de 1979, pelo fim dos pactos institucionais que "em nome da verdade" só a escondem. Lutar pelo fim da impunidade pressupõe a exigência de que todos os documentos do período da ditadura militar sejam abertos e os torturadores sejam denunciados e punidos. Neste momento prestemos uma homenagem a tod@s os lutadores que foram mortos pela ditadura militar e aos que sobreviveram e continuam aqui na luta pelo direito à memória e a verdade e por uma sociedade socialista, emancipada. Professora Bia Abramides, pela APROPUC.

Biutifiul.

Finalmente, Biutiful! Há meses, desde que fui seduzido pelas críticas (mais especificamente desde Cannes), venho tentando assisti-lo. Procurei, desesperadamente, um arquivo descente na internet, que pudesse baixar e assistir, porém todas as tentativas foram frustradas pelas péssimas imagens. Mas hoje, em meio ao aperto desses dias, consegui ir ao cinema (consciente que logo o filme sairia de cartaz). E fui preparado para receber um soco no estômago e sair com uma angustia da vida.

O filme de Alejandro Gonzalez-Inarritu (Amores Brutos, 21 gramas, Babel) tem como tema central a morte. Ela está por todos os lados. Num cenário fúnebre, sujo e caótico, a vida vai se ajeitando - ou tentando se ajeitar. Todos, ou praticamente todos, caminham para a  morte, deixando para trás suas dívidas.

O diretor parece ter deixado uma dúvida nos críticos de plantão sobre a sua ligação com o espiritismo, pois o persongem principal conversa com os mortos e os ajuda a seguir seu caminho do "outro lado" da vida. Para mim, o objetivo do diretor é ressaltar a passagem, a transição, a mudança. A vida concreta tornou-se o inferno, o castigo na terra, o cenário de Dante. Nenhuma alma, ou quase nenhuma, consegue livrar-se dos pecados, por mais bondosa que pareça. A salvação, a paz, está na morte, no fim.

A morte é a metáfora de uma sociedade efêmera, que ainda não sumiu e persiste em seguir existindo. É o mundo do trabalho precário, exercido por imigrantes ilegais, chineses e africanos, na prometida terra europeia. É o mundo regido pela lógica de um capitalismo decadente, em que as vidas valem muito pouco. Um mundo em que a única paz está na morte e não na vida. Um mundo que precisa perecer.

Todo apoio a luta da moradia na Unicamp! Basta de repressão! Vagas e bolsas para todos que necessitam!

Publicamos texto de Fernando e Danilo sobre a ocupação da administração da Moradia da Unicamp.

por Fernanda Montagner e Danilo Magrão – estudantes de Ciências Sociais e militantes do Bloco Anel às Ruas


Nessa terça, dia 2 de março, a REItoria da Unicamp, fazendo uso da Tropa de Choque com camburões e escopetas, buscou fazer cumprir uma ordem judicial de desocupação de uma casa da moradia estudantil por existirem estudantes “não oficiais” dentro das casas. Na Unicamp, assim como em diversas universidades do país, a quantidade de vagas é insuficente frente a quantidade de estudantes que necessitam. Após a ameaça de terça, nessa quarta de manhã a tropa de choque de punho armado desocupou a casa já então ocupada por uma centena de estudantes amparados pelas barricadas levantadas para impedir o desalojamento pela polícia, mantendo, assim, um clima que remonta aos ares mais duros da ditadura, ratificado pela manutenção de um regimento interno análogo ao “AI-5 estudantil” (decreto 477), de 1969.

Os estudantes fizeram uma reunião depois do ocorrido e decidiram por ocupar a Administração da Moradia Estudantil, que se mantem ocupada com reivindicações centrais por mais vagas na moradia, em denúncia a entrada da polícia e pela demissão de Viotto, administrador da moradia e lacaio da reitoria na perseguição de estudantes.

Devemos ater que a política repressiva da REItoria da Unicamp, que se manifesta contra os estudantes, se desenvolve em paralelo aos ataques aos trabalhadores: não só administrativa, mas também judicialmente, a reitoria pretende punir nove trabalhadores que encabeçaram a greve do ano passado, além de já anteriormente ter punido os trabalhadores com os salários descontados referentes aos dias paralisados.

O fato pontual, ao contrário do que pode parecer a olhos nus, não foi arbitrário. É expressão dos ritmos em que progride a implementação de um claro projeto político da REItoria de uma maior privatização das Universidades públicas e elitização do conhecimento ligado à lógica capitalista de mercado; o que passa pela falta de políticas de permanência estudantil que atendam ao conjunto de estudantes que necessitam; por uma restrição do uso do espaço público e da vivência universitária; corte de isonomia salarial entre funcionários e docentes das estaduais paulistas (na Unicamp, perseguição aos trabalhadores por exercerem o direito elementar de greve e descumprimento dos acordos de final de greve por parte da REItoria; na USP, a demissão de 270 trabalhadores logo no início do ano pelo interventor Rodas); intervenção rotineira da polícia militar nos campi (inclusive na Unesp de Rio Claro, que contou com a participação da PM nas calouradas); e a abertura de processos administrativos contra os estudantes da USP que retomaram a moradia etc.

Além disso, esse projeto do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (CRUESP) vem embasado numa lógica do governo estadual do PSDB, que já vem atacando as Universidades Estaduais a tempos e progredindo cada vez mais a intensidade e a rapidez do atrelamento da universidade ao capital privado. Evidentemente o governo federal de Dilma também dá toda a base para esse projeto de precarização da educação pública, pois se a porcentagem de ICMS repassado para o investimento para a universidade não aumenta há anos, por outro lado o governo federal não exita também em dispender bilhões de dólares para pagamento de dívida externa – em detrimento do investimento de questões elementares como educação pública(repassando milhões de reais para grandes grupos privados, como o grupo Anhanguera), que mais além de toda a propaganda de Dilma e Lula, hoje o ensino superior em nosso país não atende sequer 15 % da população. O elitismo é tamanho que mesmo com o funil do vestibular, que impede que a maioria da juventude trabalhadora e pobre possa ter acesso ao ensino superior público, os poucos jovens filhos de trabalhadores que conseguem adentrar na Universidade pública não possuem condições financeiras e de habitação para o estudo. A falta de bolsas e vagas nas moradias estudantis não é um problema localizado da Unicamp, mas generalizado em todo o país, com a conivência e implementação dos burocratas(reitores e diretores), que buscam a todo custo combater a organização dos estudantes como temos visto nos últimos anos no estado de SP e pelo país.

Esta política coordenada de repressão nas estaduais paulistas tem sua manifestação particular, em relação aos estudantes da Unicamp, na falta de moradias correspondentes ao número de estudantes de baixa renda que necessita de serviço prestado. Em acordo firmado em dezembro de 1987, a REItoria prometeu 1500 vagas ao término de dois anos, caso contrário “resultará na imediata autorização ao DCE/ Unicamp, para ocupar uma área do campus desta Universidade, equivalente ao espaço anteriormente ocupado pelos alunos no prédio do ciclo básico”. A hipocrisia da promessa resulta atualmente, 24 anos depois, em uma quantidade de vagas inferior a mil – sendo que hoje existem o dobro de estudantes do período citado. Não bastasse, a administração da moradia ainda toma medidas muito autoritários com setores mais oprimidos na moradia, como nos casos de tentar expulsar os estudantes africanos (reforço claro do racismo e elitismo desta Universidade), bem como estudantes mães, cujos filhos completaram sete anos etc.

Assim, é necessário entendermos que o que está colocado em jogo nesse processo é um projeto privatista de universidade, que não tem hesitado em atacar e reprimir o movimento estudantil e trabalhadores. Necessitamos articular uma ampla campanha democrática dos diversos setores que vem não naturalizam as ingerências da Policia Militar no campus, bem como as manobras da reitoria para ligar a universidade cada vez mais as empresas e se desligarem das demandas concretas dos estudantes, trabalhadores e da população de conjunto. É necessário que, a partir de uma campanha ampla, consigamos colocar o movimento estudantil na ofensiva - que se ligue aos trabalhadores e professores aliados - e avance em questionar o caráter da universidade, para que possamos dar passos no sentido de uma democratização radical no acesso da universidade e que esta volte seus interesses para os trabalhadores e ao povo pobre.



.Por um plano de obras que atenda plenamente as demandas reais dos estudantes que necessitam de moradia!Vagas e bolsas a todos que necessitam!

.Controle da moradia pelos moradores e entidades estudantis(DCE e Centros Acadêmicos). Auto-organização dos estudantes para decidirem os critérios e rumos das moradias. Fora ingerência da burocracia acadêmica!

.Barrar com ampla mobilização o processo de repressão aos lutadores! Fora PM dos campi!

.Por um comitê de mobilização em aliança dos estudantes com os funcionários!

.Barrar as demissões de trabalhadores na USP e a expulsão de estudantes. Reintegração imediata de Brandão! Contra os processos e sindicâncias contra trabalhadores e estudantes abertos na UNICAMP, USP e Unesp!

. Fim do vestibular e estatização dos monopólios universitários particulares para garantir a real democratização do acesso a Universidade!

Estudantes, às ruas!

Na manhã de hoje, estudantes das escolas de ensino médio de Campinas saíram as ruas para protestarem contra o abusivo aumento da passagem de ônibus (2,85). Como bem sabem, o transporte coletivo da cidade é caótico: todos os dias somos obrigados a nos espremer em ônibus desumanamente lotados; não podemos confiar nos horários das linhas, pois os ônibus estão sempre atrasados; gasta-se cerca de duas a três horas para atravessar de uma ponta a outra da cidade; etc.

De quem é a culpa disso tudo? Dos motoristas e dos cobradores de ônibus? Claro que não. Estes, infelizmente, trabalham mais de dez horas por dia (em seus turnos de oito horas mais horas extras que são obrigados a cumprir por livre e espontânea pressão), no calor infernal da cidade, ganhando uma miséria. Caso você duvide disso, sugiro aproveitar a próxima vez que passar pela catraca para perguntar ao cobrador sobre as suas condições de trabalho.

Os culpados são as empresas privadas que controlam o transporte coletivo, e como toda empresa capitalista, para aumentar seus lucros ao máximo, racionalizam também ao máximo as linhas de ônibus. Desta forma, os passageiros são apenas números nas pranchetas de engenheiros de trânsito e administradores que nunca usaram o transporte coletivo para se locomoverem. A culpa é também do Dr. Hélio, Prefeito da cidade, que opta por manter este sistema de transporte coletivo privado (dizem as más línguas que ele e seus aliados receberam das empresas de transporte de Campinas gordas ajudas as suas campanhas eleitorais).

A luta destes estudantes é legítima e deve se estender para todas as camadas da população trabalhadora. Devemos sim lutar para reduzir a passagem; mas devemos também lutar por um controle social dos serviços essenciais da população: transporte, saúde, educação, etc. Pode ser que não consigamos reduzir, neste momento, o valor da passagem. E com certeza teremos que ampliar e muito nossa mobilização para conquistar a estatização do transporte coletivo. Mas uma coisa estes estudantes estão conquistando: a organização política e a tomada das ruas enquanto forma legítima de manifestação popular.

Todo apoio e força à luta estudantil!

Reestreia...

Mal iniciamos o ano letivo e de cara já fui cobrado por vários alunos pela falta de atualização deste Blog. Devo reconhecer que faz alguns meses que não posto nada. Deixei-o secundarizado enquanto instrumento de divulgação das minhas ideias ou das dicas culturais que costumo dar,  talvez porque tenha sido contagiado pela onda avassaladora do Facebook (com 500 milhões de usuários, ele mereceu até um filme, indicado agora ao Oscar, mas, diga-se de passagem, na minha opinião, medíocre), pois é um instrumento mais fácil de postar pequenas observações, principalmente as indicações de filmes - com a vantagem de anexar os traillers e de atingir instantaneamente centenas de pessoas (a maioria meus alunos) com um simples toque. Aqui conto com a vontade de cada um em acessa-lo. No entanto, a cobrança amigável dos meus alunos por atualizar esse meio me empolgou a voltar a escrever em sua tradicional coluna vertical! Fica então aqui minha reestreia.

Uma dica de filme:
La teta asustada (O leite da amargura)
direção: Claudia Llosa
Peru, 2009.
O filme concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas perdeu para o argentino "Os segredos dos seus olhos". Este ultimo, realmente, é muuuuiiiitttttoooo bom!

Cena do filme, La teta asustada.

Lançamento:

ATIVIDADE SOBRE ETNOCENTRISMO

Atividade de sociologia para alunos dos 2os anos da ETECAP e Bento Quirino

Há uma outra proposta, publicada em (Socio)lizando.

Os alunos deverão ler o texto abaixo retirado da intenet e fazer a atividade proposta.

É uma visão do mundo onde o “nosso grupo” é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos próprios valores e nossas definições do que é existência. No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc. O etnocentrismo é a procura de sabermos os mecanismos, as formas, os caminhos e as razões pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções, pensamentos, imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. De um lado, conhecemos um grupo do “eu”, o “nosso” grupo, que come igual, veste igual, gosta de coisas parecidas, ou seja, um reflexo de nós. Depois, então, nos deparamos com um grupo diferente, o grupo do “outro”, que às vezes, nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. E, mais grave ainda, este “outro” também sobrevive à sua maneira, gosta dela, também está no mundo e ainda que diferente, também existe. O grupo do “outro” fica como sendo engraçado, absurdo, anormal ou ininteligível. E a sociedade do “eu” é a melhor, a superior. O “outro” é o “aquém ou o além, nunca o “igual” ao “eu”“. Privilegiamos ambos as funções estéticas, ornamentais, decorativas de objetos que, na cultura do “outro” desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. O etnocentrismo passa por um julgamento de valor de cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. Um famoso cientista do início do século, Herman von lhering, justificava o extermínio dos índios Caianguangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. Tanto no presente como no passado, tanto aqui como em vários lugares, a lógica do extermínio regulou infinitas vezes, as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. Cada um traduz nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original é forjado na cultura do “outro”. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. E por não poderem dizer algo de si mesmos, acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. Assim são as sutilezas, violências, persistências do que chamamos etnocentrismo. Os exemplos se multiplicam no cotidiano. A “indústria cultural” está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com a diferença. Como as idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”, os “negros”, os “empregados”, os “paraíbas de obras”, os “colunáveis, entre outros”. Assim, como o “outro” é alguém calado, a quem não é permitido dizer de si mesmo, mera imagem sem voz, manipulado de acordo com desejos ideológicos, o índio é, para o livro didático, apenas uma forma vazia que empresta sentido no mundo dos brancos. Em outras palavras, o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer em diversos papéis. Como também ocorreu na colonização do Brasil por Portugal. Existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. Uma das mais importantes é a da relativização. A Antropologia sempre soube conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade; O etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso, com a ideologia da conquista, com o desejo da riqueza, com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Mas, a “diferença” é generosa. Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. O objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência se traduz, neste sentido, em economia de sobrevivência ou, mais diretamente, de miséria. Aqui podemos Ter o exemplo do significado ao respeito aos dados etnográficos, dados obtidos pelo trabalho de campo, que podem transformar a teoria antropológica. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática, uma outra – a deles -, que não pratica esta acumulação, seria necessariamente pobre e miserável. Perceber que as sociedades tribais não acumulavam, não porque não podem, mas porque não querem, porque fizeram uma opção diferente, é perceber o “outro” na sua autonomia. Quaisquer que sejam as possibilidades da antropologia ela, ao menos, livrou-se, definitivamente de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. Enfim, o etnocentrismo é exorcizado. O mundo no qual a Antropologia pense se torna complexo e relativo. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”.

Cada grupo deverá refletir sobre o conteúdo do texto acima e escrever um pequeno texto relatando casos de nosso cotidiano em que o etnocentrismo se manifesta. Poderá usar recortes de jornais; exemplos cotidianos vividos pelos alunos dentro e fora da escola; etc. Os resultados serão apresentados para a sala de aula. Bom trabalho a todos!

INDICAÇÃO DE LIVROS DIDÁTICOS DE SOCIOLOGIA

Muitos alunos e professores me solicitam referências de livros didáticos de Sociologia para aprofundarem os seus estudos ou seriem de auxiliar em suas aulas. Infelizmente, por ser uma disciplina na grade curricular, há poucos livros didáticos bons para serem adotados em sala de aula.

Num outro artigo analisarei os livros didáticos, pois os considero muito parecidos, além de deixarem de fora questões que considero centrais, como é o caso do debate sobre a questão negra no Brasil. Logo abaixo faço apenas alguns comentários.

Eu recomendo, para aqueles que podem comprar, o livro do Prof. Nelson Tomazi "Sociologia para o Ensino Médio" da editora Saraiva e o recente livro que saiu pela Fundação Getúlio Vargas e Editora do Brasil "Tempos modernos, tempos de sociologia" de Helena Bomeny e Bianca Freire-Medeiros. O primeiro foi o que melhor desenvolver os conteúdos programáticos sugeridos nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Nele não encontramos nenhuma problema conceitual, apesar do autor em alguns momentos cair numa linguagem acadêmica, distante do mundo dos nossos alunos. As propostas de atividade são boas e criativas. Já o segundo livro acaba cometendo um erro fundamental em sua proposta geral: o divide entre uma "sociologia geral" e uma "sociologia do Brasil". Isso ocorre porque os autores não conseguem dar conta de trabalhar todos os conteúdos fundamentais da Sociologia em torno do filme "Tempos Modernos" de Charles Chaplin. Apenas os "conceitos" gerais são trabalhados em torno do filme. Isso seria óbvio: como encaixar neste filme o conflito de Canudos, fundamental para compreender o Brasil, e por fora de qualquer conceito de modernidade formulado pelos clássicos?












Há também alternativas mais baratas e boas, como o livro público didático de Sociologia adotado na rede pública do Estado do Paraná.

Para os professores, há um livro com reflexões sobre o ensino de Sociologia publicado pela SBS.

Por fim, ainda para os professores, estou construindo uma página com indicações de artigos que se propõe a refletir o ensino de Sociologia em meu blog (Socio)lizando.

Pense no Haiti, no Haiiiitiiiiiiii... (com revolta)!


É revoltante a situação do Haiti. Não podemos ficar passivos frente a tal acontecimento por achar que foi catastrofe natural, fruto de um terremoto. Os grandes meios de comunicação e os governos culpam a natureza, no entanto, as modificações ocorridas na superfície não são fruto da natureza, mas das relações humanas. A intensidade da desgraça no Haiti é consequência da miséria deste país, fruto deste sistema capitalista. Um terremoto destas proporções no Japão não produziria tantas morte, já que possuem uma infra-estrutura ultra moderna nas construções para se prevenir dos terremotos, e uma rede de hospitais e de salvamento prontos para agir. Já no Haiti, o pouco de estrutura que tinham em Porto Príncipe parece ter sido destruído agora com o terremoto. Fala-se em 100 mil mortos ou até mais.
Nas imagens da TV, milhares sofrendo, desesperados em meio as ruas, enquanto que no prédio da ONU centenas de militares e ajudantes salvando os agentes do imperialismo, diga-se de passagem, brancos! E o exército brasileiro? Alguém ainda acha que ele foi para lá em missão de paz? Cadê a sua ajuda? O que contribuiu de positivo para esse país miserável, senão fazer um papel nefasto de subserviência ao imperialismo e treinar tropas para atuar nos morros e na periferia do Brasil? Lembrem-se, Haiti fica há alguns quilômetros da costa dos EUA, e nos anos 1990 milhares de haitianos fugiam em botes para este país. Por isso que toda declaração vinda dos chefes de Estado são hipócritas!

Toda solidariedade ao povo haitiano! Organizar uma ação internacional ao povo haitiano a partir dos sindicatos, locais de trabalho, organizações políticas de esquerda.


Para quem quiser ler notícias de um grupo de brasileiros, pesquisadores da
Unicamp, que estão no Haiti, entrem em: http://lacitadelle.wordpress.com/






Os filhos do Brasil não vão ao cinema.



Sem nada pra fazer no segundo dia de 2010 fui assistir a estréia do filme “Lula, o filho do Brasil” de Fábio Barreto. Uma porcaria! Esteticamente fraco, o diretor perde uma grande oportunidade de propor uma reflexão sobre o Brasil de Lula. O caminho escolhido para a narrativa não é tão ruim, – e nisso confesso que o diretor me surpreendeu, pois esperava uma história concentrada nas greves dos anos 1970 e na constituição do mito “Lula” - pois, ao reconstituir a vida de Luis Inácio da Silva, do seu nascimento no interior nordestino ao líder sindical das greves do ABC paulista, o filme mostrou parcialmente o percurso traçado por tantas vidas serverinas deste país enorme nas extensões e nas contradições. Muitas são as imagens: o moderno que caminha e cresce diante das mazelas do arcaico; o tempo vagaroso do rural sendo substituído pelas engrenagens e o concreto da cidade. Um país que soube dialeticamente se industrializar e crescer sem romper radicalmente com as estruturas mais reacionárias do seu passado colonial. Se o personagem principal fosse o Brasil o filme teria sido muito mais interessante.


O diretor poderia ter problematizando estas questões em seu filme, transformando a figura de Lula, em mero ponto de partida para uma reflexão mais profunda, com uma estética que nos remetesse aos projetos de Glauber Rocha. Mas Barreto preferiu a estética global, o senso-comum e o cinema comercial. Em ultima instância, seu filme não deixa de ser uma forma de reafirmar mais uma vez o “mito” Lula, algo que muitos outros diretores e autores já fizeram no passado com muito mais sofisticação.


Ao chegar ao cinema, fui surpreendido por algumas coisas. A primeira delas foi o próprio público. Tentei chegar bem cedo, pois minha lógica é que as entradas logo se esgotariam. Pensei: se o Lula tem a incrível marca de 83% de aprovação é óbvio que um filme sobre ele será uma grande sensação. A fila estava realmente enorme, porém as pessoas ali estavam preocupadas em assistir “Avatar”, a nova sensação de efeitos especiais de James Cameron – uma produção que chegou a marca dos 500 milhões de dólares. A minha surpresa deveu-se a um erro de análise do público e do local.


A segunda surpresa veio quando entrei na sala: quase não havia jovens. A absoluta maioria do público era de pessoas acima dos 40 anos de idade. Poderíamos pensar que novamente o “Avatar” explicaria - pois os velhos não se interessam por histórias de ET’s azuis? O fato é que tinha poucos jovens. Neste caso, há que esperar e ver como serão as próximas sessões, mas em minha opinião a questão é que as novas gerações não se interessam pela história de Lula, pois quando adquiriram alguma consciência política era Lula e o PT quem governava o país com sua política conservadora, distante de qualquer prática e programa de esquerda. Esta é a primeira geração que não apostou, em nenhum momento de sua vida, em Lula ou no PT como projeto de esquerda para o Brasil. Por quê então se interessar pela história do presidente Lula?


O meu ultimo grande erro, talvez o maior deles, foi achar que ali naquele espaço estariam uma fração dos 83% que apóiam o presidente. Sua aprovação, apesar de alta mesmo na pequena burguesia, é qualitativamente diferente do apoio que recebe dos milhões de explorados e famintos, homens em mulheres de vida sofrida, que não tem dinheiro para poder pagar a entrada do cinema (nem mesmo possuem um cinema em suas cidades). Estes, desgraçadamente, assistirão ao filme quando ele chegar aos camelôs ou for exibido pela Globo. E se emocionarão com a história do jovem pernambucano que vira sindicalista, assim como se emocionaram com o filme sobre os filhos de Francisco que viram astros do sertanejo.


Enquanto o mito de Lula continua a ser reproduzido, os filhos do Brasil continuam a sofrer com as enchentes, a exploração, as demissões, a precarização do trabalho, a miséria, a seca... O Brasil dos contrastes continua seguindo seu percurso para a ilusão do país potência. Precisamos de um novo filme que conte a história dos milhões de filhos do Brasil sem os mitos sindicalistas, populistas, messiânicos... Uma nova geração que, sonhadora da revolução, coloque abaixo todos os mitos! Eu escolho estar com estes!

Sarah Maple: provocando...

A inglesa Sarah Maple, 24 anos, é daquelas artistas que produzem uma arte descartável. Sua obra não apresenta nenhuma novidade, nem na temática menos ainda na estética. Mas cumpre a função de evidenciar a hipocrisia de uma sociedade burguesa decadente permeada crescentemente por uma polarização social e a intolerância com o "outro". No caso de hoje, estes são os islâmicos, associados ao terrorismo, a barbárie, ao primitivismo e a irracionalidade. Sarah, filha de uma mulher mulçumana, trata em sua arte a questão da mulher tanto oriental, e aí sim toda a barbárie que lhes são cometidas, como ocidental. Provoca as feministas burguesas ao evidenciar sua falsa liberdade na sociedade ocidental capitalista, submetidas as formas mais "modernas" - sutis - de opressão. Devemos reconhecer o mérito de Sarah por retomar esse tema.

("Eu amo orgasmo")

("Usem a minha inteligencia")

Filme: Os amantes do círculo polar

(Esta noite espero-te em meu quarto. Salte pela janela. Valente!)



Amantes do Círculo Polar (1998)
Julio Medem
Algumas cenas do filme... depois escrevo uma crítica.