A praça virou sala de aula

Hoje, segunda-feira, 16 de maio, a greve nas ETECs Conselheiro Antônio Prado e Bento Quirino seguiu o curso iniciado na semana passada. As duas escolas permaneceram sem aulas, imperando a deliberação da nossa categoria: greve! Infelizmente, alguns colegas professores insistiram em seguir furando-a. Os motivos são vários e sempre pessoais (alguns compreensíveis). Mas todos nós corremos o risco de perdas. Porém, ainda acredito que outros virão para o nosso lado (como aconteceu hoje), quando compreenderem que este é um movimento diferente dos anos anteriores, que está ganhando força a cada dia e que dependerá da unidade entre nós para ser vitorioso.

Independente das divisões, a greve se manteve na ETECAP e no Bentão. E os estudantes, melhores organizados que nós professores, saíram às ruas. Ocuparam a avenida Orozimbo Maia e marcharam em direção ao centro da cidade. No meio do caminho se uniram com os estudantes da ETECAP, que desta vez resolveram vir de ônibus. Continuaram marchando até o Largo do Rosário, praça de antigas lutas e manifestações, carregada da história dos negros, no seio do centro campineiro (nela ficava uma Igreja frequentada pelos negros aforriados; suspeita-se que serviu de local para organização de insurretos negros; mas foi derruba após construirem a nova Catedral; porém, essa é uma história para outro post). Já na praça, os 400 estudantes, junto com seus professores e funcionários tecnico-administrativos, abriram um grande círculo humano.

Na praça das antigas lutas fizemos nossa aula pública e aberta para a população. Fomos observados por centenas de pessoas que ali passavam correndo, e inúmeras vezes fomos saudados com seus olhares ou com uma palavra amistosa. Compreendiam aquelas pessoas, que ali estavam jovens e trabalhadores querendo mostrar que nosso movimento tem um objetivo central: lutar por uma melhora na qualidade da educação! Por isso, mesmo em greve, apesar de paralisarmos as aulas, continuamos com aquilo que é primordial em nossas instituições de ensino: a reflexão crítica.

Que constraste com a realidade das salas de aula? Fechadas, abafadas, hostis! Contraste maior foi pensar que, enquanto estávamos ali, em meio ao sol da manhã, alguns de nossos colegas insistiam em amedrontar seus alunos dando-lhes uma prova ou faltas. Pior eram aqueles que seguiam sozinhos para suas salas de aulas vazias. Onde se aprendeu mais nesta manhã? Nas salas de aulas dos que insistem em romper a greve? Ou naquela manifestação política e pedagógica?

Terminamos este singelo ato com uma aula pública sobre a precarização do trabalho. Precarização do trabalho dos professores e tecnico-administrativos. Precarização das futuras profissões daqueles alunos ali sentados. Precarização de nosso futuro! Por isso que nossa luta não tem sua razão apenas no imediato (no aumento salarial), mas em algo mais estratégico: o futuro! Sigamos em frente, companheiros!

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O que saiu na mídia sobre o ato no Largo do Rosário:

Com esta eles não contavam: palhaços inteligentes e conectados

O governo e a superintendencia, com ajuda dos diretores e, infelizmente, alguns professores, tentam descaracterizar nossa greve usando-se da confusão e da contra-informação. Dizem que a greve está pequena e que poucas unidades aderiram a ela. Entretanto, eles cometeram um grande erro ao não entenderem ou menosprezarem o fenômeno que aconteceu no twitter na noite de quinta-feira passada (12/05). Estudantes da ETECAP fizeram um twitaço com a palavra #circopaulasouza e em poucos minutos ela ocupava o primeiro lugar do Twitter do Brasil. No dia seguinte, esta palavra estava estampada em vários cartazes estudantis no ato de São Paulo.

O que nossos oponentes não entenderam ainda é que a internet está sendo usada enquanto instrumento a favor de nossa greve. O governo emite informações erradas para a imprensa (já cansei de dizer que eles mentem ao anunciar que temos uma jornada de trabalho de 40 horas semanais), mas nós encontramos colegas, professores, funcionários ou estudantes, divulgando a luta de suas unidades nos blogs, no Twitter e nas comunidades do Orkut. O picadeiro pode estar armado, mas os palhaços são inteligentes e conectados.

Vou neste post listar os blogs e as comunidades que interessam a nossa mobilização:

Blog do Sindicato (SINTEPS): http://greve-ceeteps-2011.blogspot.com/

Blog dos Alunos da FATEC de Bauru: http://alunosfatecbtu.wordpress.com/

Seguirei postando outros sítios. Quem conhecer algum, por favor, envie no "Comentários".

#centropalhasouza - Desconstruindo as mentiras - 1

#centropalhasouza - Desconstruindo as mentiras - 1

Numa greve como a dos servidores (professores e funcionários tecnico-administrativos) do Centro Paula Souza, a disputa da opinião pública torna-se fundamental. Ela não paralisa nenhuma produção do capital, como é o caso de uma greve no setor industrial, que causa prejuízo direto ao patrão, forçando-o a negociar desde o início com os grevistas para que a mais-valia volte a ser produzida. Nossa greve paralisa o serviço público, atingindo direta ou indiretamente a população que usufrui dele. Portanto, torna-se crucial na nossa mobilização o convencimento da população da justeza de nossas causas.

Não queremos neste artigo descontruir o discurso contrário a greve nos serviços públicos - deixamos para um próximo artigo. Muitos compreendem facilmente que quem vem paralisando o serviço público, com a precarização das estruturas e do trabalho, com as privatizações, são os diversos governos estaduais, municipais e federais. Portanto, a precarização do serviço público (em última instância, a perda do seu sentido público) é uma política consciente de Estado. E cabe a nós demonstrar isso.

O Centro Paula Souza ficou conhecido nacionalmente enquanto uma instituição de ensino médio, técnico e tecnológico de "excelência". Quem não se lembra das propagandas eleitorais do PSDB nas ultimas eleições para o governo estadual e federal? O que teme o governador Alckimin, em sua plena crise partidária e de governo (não nos esqueçamos que o PSDB saiu das eleições dividido e agora seu aliado na capital resolveu criar um novo partido, agariando algumas velhas e novas figuras bizarras para o seu lado), é que a greve dos professores e funcioários do Centro escancare as verdadeiras condições de trabalho desta autarquia. Por isso mesmo, nesta ultima quinta-feira, 12/05, o governador e a Laura Lagná (a nossa autocrática da superintendencia) anunciaram para a imprensa (e não para a categoria ou o sindicato, nosso legítimo representante) um aumento salarial de 11% como parte de uma política de valorização salarial.

O que pretendem com este anúncio: 1) desmobilizar nossa greve, tentando enganar nossa categoria que este aumento basta para cobrir nossas perdas destes ultimos anos; 2) convencer a população que o governo está preocupado com a educação e que os "intransigentes", aqueles que "estão contra a educação de qualidade", que "só querem fazer política contra o governo" (e inúmeros outros argumentos desqualificadores) são os grevistas. Uma pessoa comum, sentada em seu sofá vendo o jornal da noite pensaria: porque uma greve se já receberam o reajuste? 3) esconder as verdadeiras condições de trabalho do Centro Paula Souza.

Mas vejamos a verdade: 1) 11% não cobrem nem mesmo as perdas que tivemos referente a inflação destes ultimos anos, em torno de 82% para os professores e 97 para os funcionários. 2) se o governo estivesse preocupado com uma política de valorização salarial, teria dado este aumento/reajuste há muitos anos atrás. Não estamos diante de um novo governo, que estaria revertendo uma política salarial nefasta de um governo ou governos anteriores. Estamos diante do mesmo governo, do mesmo partido, e da mesma pessoa! 3) o governo tenta nos confundir com seus índices, calculando quanto seria nosso salário numa jornada de 40 horas semanais. Outra mentira, pois nosso contrato não é em torno de uma jornada de trabalho (como acontece aos professores da Secretaria de Educação), mas sobre hora-aula. A maioria não chega a passar de 10 hora-aulas por semana e essa condição de trabalho é outra faceta da precarização, pois exime o Estado de um contrato baseado na estabilidade do servidor público (professor) e de uma jornada que não deveria ser constituída apenas por aulas, mas também preparação destas, estudos, monitorias e pesquisa.

Por isso os estudantes estão certo. Eles acham que somos palhaços, que vamos baixar a cabeça e voltar para o picadeiro? Vamos Usar todas as ferramentas virtuais e reais para divulgar nossa luta!#circopalhasouza neles!

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Para comprovar as informações que listei logo acima, veja a matéria do site do Centro Paula Souza sobre o assunto: http://www.centropaulasouza.sp.gov.br/Noticias/2011/maio/12_governo-anuncia-reajuste-de-11-para-servidores-do-centro-paula-souza.asp

Os desafios da greve

Os desafios da greve no Centro Paula Souza

A greve no Centro Paula Souza teve início nesta sexta-feira, 13 de maio. Em São Paulo, na sede da Superintendencia, fez-se um importante ato com aproximadamente 500 pessoas, dentre professores, tecnico-administrativos e estudantes das ETECs e FATECs. O ato, que foi um dos maiores desde a fundação do Sindicato (o que indica que entramos na greve com muito fôlego para lutar), poderia ter sido ainda maior se não fosse a distância entre as cidades (o Centro é formado por 247 unidades espalhadas pela capital, litoral e interior) e pelo "ônibus" de Campinas que deixou na mão 40 pessoas (na ultima hora descobrimos que não o teríamos mais). Mas tudo bem, mesmo assim três carros foram lotados representando a ETECAP e o Bento Quirino.

O importante é que neste ato estavam presentes mais de 70 unidades, através de seus representantes, todos dispostos a militar pela greve! Serão estes os responsáveis por manter e ampliar a greve. O sentimento de raiva e indignação da categoria, principalmente depois que o governador Alckimin anunciou um pífio reajuste de 11%, muito abaixo das perdas que tivemos nestes ultimos anos (estamos revindicando 82,735% para os docentes (reajuste + recomposição) e 97,558% (reajuste + recomposição) para os funcionários), está se revertendo em energia para resistir a todas as pressões adversas a nossa mobilização. E estas são muitas!

Hoje, o principal empecilho para o desenvolvimento pleno de nossa greve está no interior de nossa própria categoria. Está no medo por parte de alguns companheiros, pois receiam  perder os seus "benefícios". Está no assédio moral que muitos recebem das direções e coordenações. Está no individualismo. E, principalmente, na falta de esperança de que a greve poderá ser vitoriosa. Um ceticismo que se consolidou nestes ultimos anos em vários setores de trabalhadores fruto da ideologia neoliberal, que exarcebou o individualismo, mas também atacou os intrumentos organizativos (como os sindicatos) e de luta da classe trabalhadora (como as greves, as manifestações de rua, a militancia em si).

O resultado disso é a hegemonia de um pensamento estreito, contingencial, momentaneo, imediato, localista, corporativo... uma mente estreita, com uma visão curta. Não se pensa na greve enquanto um catalisador de inúmeras novas possibilidades (organizativas, pedagógicas e políticas), mas enquanto um instrumento com objetivos pragmáticos, de preferencia que não incomode muito.

Alguns tentam inventar a roda da história, chamam a greve de instrumento arcaico e dizem ter a solução. Mas na verdade, suas críticas aos nossos instrumentos de luta são tão velhas quanto os próprios instrumentos. Esbravejam como se fossem velhos sábios contra os novos empolgados pela greve; mas se esquecem que estes novos estudam a história de luta de nossa classe. E este história nos mostra que nenhuma conquista foi obtida sem luta! E a luta requer assumir riscos e ter coragem!

Contra todo este pensamento típico da condição pós-moderna, resta-nos o debate (o confronto de ideias, a disputa pela verdade, a comparação com as vitórias do presente e do passado) e a própria luta. Não se pode afirmar que isso nos levará a uma vitória no final do processo, pois nele há inúmeras determinates em jogo. Mas se pode afirmar que sem estas lutas (teórica, política e prática), seremos com certeza derrotados!

Para maiores informações sobre o ato do dia 13/05, ver: http://www.sinteps.org.br/news0261.html

RELATO SOBRE A GREVE

RELATO DOS ALUNOS DA FATEC DE BOTUCATU SOBRE O INÍCIO DA GREVE


Ontem 13/05/2011, foram realizadas duas Assembléias na FATEC de Botucatu. A primeira as 10:00 horas da manhã, com participação de professores, funcionários e alunos (os mesmos manifestaram apoio total a causa) mas o clima era de dúvida, pois não sabiamos quantas unidades das fatecs e etecs estavam realmente paradas. Além disso, muita pressão vinha do lado do diretor da faculdade e de alguns coordenadores de curso, que levavam informações disponibilizadas pelo centro paula souza, dizendo que o movimento de greve era praticamente inexistente, mas claramente percebido entre os participantes como tentativa óbvia de manobra política para confundir e tentar dispersar qualquer ação de professores e funcionários em direção a greve.

Os coordenadores que também são professores se manifestaram contrários a greve, alegando que possuem cargo de confiança e podem perder seus empregos por isso. Alguns funcionários também possuem tais cargos de confiança e também foram contra.

Mesmo assim a maior parte dos presentes foi a favor a greve, mas como no periodo da tarde iria ser realizado um manifesto em frente a FATEC São Paulo decidimos por aguardar o fim da manifestação para tomar uma atitude definitiva.

Ficou decidido que até as 17:30 (hora de nova assembléia) a FATEC Botucatu estaria em ESTADO DE GREVE, e ficou claro (registrado em ata e com várias testemunhas) que se 50% + 1 alunos ficassem para fora da sala nenhum aluno seria prejudicado, e todos teriam direito a reposição dessas aulas perdidas.

Sendo assim, após a reunião, no período de aula vespertino (13:00 ás 18:30) os alunos assinaram uma moção de apoio e se negaram a entrar em sala. Deixamos claro que ninguém foi obrigado, todos aderiram de livre e espontanea vontade.

Um coordenador (que possui cargo de confiança e se manifestou contra a greve) afrontou os alunos que não entravam na sala e principalmente os alunos que estavam colhendo as assinaturas, mas nós alunos não nos intimidamos e expomos a situação de que estava claro que o papel deste coordenador era acabar com a resistência pra defender seu cargo com medo que uma greve leve seus superiores a penalizar a unidade.

OS ALUNOS DO PERIODO DA TARDE NÃO ENTRARAM NA AULA POR VONTADE PRÓPRIA.

Então, as 17:30 na Assembléia Geral, após a manifestação pública em

São Paulo, e após contato com o sindicato, ficou decidido que os professores e funcionários da FATEC de Botucatu passaram do ESTADO DE GREVE para definitivamente entrar em GREVE.

No período noturno (19:00 ás 23:00) todos os professores entraram em sala para explicar a causa aos alunos, o que durou aproximadamente meia hora, e lógo em seguida todos os alunos foram embora. Aproveitamos para colher mais assinaturas.

Preciso alertar que todos os diretores de unidades em greve estão fornecendo informações FALSAS para a mídia para confundir e tentar acabar com o movimento.

Quem puder ajudar a divulgar estas informações por favor ajude, espalhe e esclareça: A FATEC BOTUCATU ESTA EM GREVE E APOIA TODAS AS UNIDADES QUE ADERIRAM AO MOVIMENTO.

Estamos procurando alunos de outras unidades para também nos unir e nos organizar nessa manifestação de apoio a nossos professores e funcionários.

Aceitamos todo tipo de apoio.

Atenciosamente,

Alunos da FATEC de Botucatu.

Lançamento de livro na Unicamp

Comentários ao artigo da Carta Capital sobre o Centro

No post anterior publiquei um artigo da revista Carta Capital sobre o Centro Paula Souza. Neste quero enumerar algumas questões importantes que não foram abordadas pelo jornalista Rodrigo Martins. Para isso, reproduzo literalmente o "comentário" que fiz ao final do artigo no site da Carta Capital:
Olá, sou professor de duas ETECs de Campinas e também gostaria de fazer coro com os colegas sobre a importância deste artigo. Depois de tantos anos de propaganda mentirosa por parte do PSDB sobre o Centro Paula Souza, seu instrumento eleitoral, finalmente uma matéria que apontasse para uma discussão séria. Mas, após os elogios, seguirei o caminho de Miranda, pontuando alguns limites desta matéria (pois assim acredito que aprofundaremos na reflexão):
1. Tenho total acordo com a crítica de Miranda. O Centro Paula Souza não é composto apenas de professores, mas também de funcionários tecnico-administrativo. Diria mais, também é composto de funcionários terceirizados, que realizam em cada unidade de trabalho a manutenção, a limpeza, a segurança, etc tão necessária para o funcionamento desta instituição. E a terceirização segue sendo um grande problema para qualquer categoria, pois além de precarizar o trabalho (dando um salario infinitamente menor que o de um funcionário efetivo que realiza a mesma tarefa), nos divide entre efetivos (ou indeterminados) e terceirizados.
2. O artigo não leva em consideração que o Centro Paula Souza é uma autarquia do estado de SP que funciona de forma completamente antidemocrática. Seus cargos de direção são ocupados sem que haja critério algum na sua seleção (apenas o apadrinhamento), muito menos eleição. Discute-se tanto a meritocracia, a avaliação dos professores e funcionário, mas pergunto: quem avalia a superintendente Laura Laganá (que não teve coragem de responder as perguntas desta reportagem)? Os professores e funcionários passaram num concurso público, concorrido, para ocuparem o cargo que ocupam hoje. E aqueles que estão hoje na Superintendencia foram aprovados em que processo?
3. o artigo também não associou dois fatos que ocorreram simultaneamente. Nestes ultimos anos não recebemos nenhum aumento salarial. E também neste período o Centro teve a sua maior ampliação de vagas e de unidades da história (com várias unidades fictícias – as extensões). Conclusão: a ampliação do Centro ocorreu sob a base do arrocho salarial dos professores! Objetivo: garantir a manutenção do PSDB no poder do estado de SP.
Por enquanto, acho que estes são os pontos fundamentais que faltaram no artigo. Mas, como eu disse, ele tem o seu mérito por ter sido o primeiro a questionar a “inquestionável” política do governo de SP para as escolas e faculdades técnicas. Valeu pelo artigo!
Nos próximos dias seguirei postando artigos e comentários sobre o Centro Paula Souza, pois estamos em momento de reflexão e de luta. Em várias unidades já aprovamos greve por tempo indeterminado a partir do dia 13/05.

Interessante matéria de Carta Capital sobre Centro Paula Souza

A “meritocracia” do ensino paulista

Escrito por: Rodrigo Martins



Sem reajuste salarial desde 2005 e descontentes com os critérios usados para o pagamento da chamada “bonificação por resultados”, professores das escolas técnicas (Etecs) e faculdades de tecnologia (Fatecs) do estado de São Paulo ameaçam entrar em greve a partir de maio. De acordo com Silvia Elena de Lima, secretária-geral do Sinteps, o sindicato da categoria, a proposta tem sido debatida em assembleias regionais nas mais de 200 unidades da rede. Caso seja aprovada, a paralisação começaria em 13 de maio.

Nossa última greve, em 2004, durou 80 dias. Foi graças a ela que conseguimos reajuste no ano seguinte”, avalia. “De lá para cá, o governo tem usado a bonificação como desculpa para não mexer nos salários. Só que os critérios desse bônus são confusos e punem o professor por aspectos que não dependem dele.”

Entre 2000 e 2006, o governo paulista oferecia o chamado “bônus mérito” para estimular a atividade docente. O pagamento premiava, na verdade, professores assíduos, com mais tempo de casa e bem avaliados pelos gestores das escolas. A partir de 2007, o sistema foi substituído pela bonificação por resultados, que passou a agregar critérios de produtividade, como a aprovação dos alunos e a evasão escolar. Além disso, criou-se o Sistema de Avaliação Institucional, no qual alunos, professores e funcionários respondem a um extenso questionário para avaliar a qualidade de ensino e as condições de infraestrutura das unidades.

O governo tem todo o interesse de que o número de formandos seja o maior possível, porque a repetência gera mais gastos para o sistema”, afirma Antonio Pereira Afonso, diretor interino da Etec Getúlio Vargas, na zona sul de São Paulo. “Por trás dessa política de bonificação, há, porém, uma estratégia de ‘forçação de barra’, de aprovar aluno a qualquer custo, mesmo que ele não tenha desempenho satisfatório. Além disso, a evasão escolar e o déficit de aprendizagem não dependem apenas do docente. Normalmente estão associados a outros fatores externos à escola, como problemas familiares ou necessidade de trabalhar.”

Em 2011, os professores da Etec Getúlio Vargas tiveram um bônus de 2,4 salários, índice muito superior ao oferecido nos últimos dois anos, quando os docentes receberam menos de um salário a título de bonificação. O que mudou? “De fato, podem ter -contribuído os mutirões feitos por professores na tentativa de recuperar alunos irrecuperáveis. Mas, na prática, isso também se deve ao acaso. Menos alunos desistiram dos cursos”, avalia Afonso.

Doralice de Souza Balan, diretora da Fatec de Bragança Paulista, uma das oito faculdades de tecnologia que não receberão bônus em 2011, critica a falta de critérios claros no pagamento do benefício. “Desde fevereiro, requisitamos informações ao Centro Paula Souza (órgão estatal responsável pela administração das escolas técnicas e Fatecs) para saber exatamente a meta que precisávamos cumprir, mas ainda não recebemos resposta”, afirma. “Estamos no limbo, sem saber no que erramos, se é que erramos. Um dos pontos avaliados é a infraestrutura da escola, mas isso é de responsabilidade exclusiva do governo. Como a unidade é nova, compartilhamos o prédio de uma escola municipal até o nosso ficar pronto. É evidente que há insatisfação com as instalações inadequadas, mas quem resolveu expandir a rede antes de oferecer todas as condições não foram os professores.”

Do quadro de 22 docentes da Fatec São Sebastião, no litoral norte, três abandonaram a instituição no último ano para lecionar em escolas privadas ou universidades federais. “O plano de carreira deles é mais vantajoso e os salários, melhores”, explica Balan.

O coro dos descontentes é engrossado por Silvana dos Santos de Marchi, diretora acadêmica da Fatec São Sebastião, criada em 2009. “Dividimos espaço com uma escola técnica. Faltam laboratórios, biblioteca, os banheiros estão superlotados. Mas essa é uma situação excepcional, até o prédio da faculdade ficar pronto”, lamenta. “O que deveria incentivar o professor está se tornando um fator de desestímulo. É injusto o docente não receber bônus por causa da infraestrutura, porque houve pouca aprovação ou muitos alunos desistiram do curso. Isso é normal em qualquer faculdade.”

A gestora também critica a falta de comunicação da administração central com as unidades de ensino. “O Centro Paula Souza divulgou as metas de cada escola ou faculdade um dia antes de o governo estadual publicar, no Diário Oficial, os índices de bonificação para cada instituição. É uma aberração. Quando é traçado um objetivo, o razoável é que todos saibam o que é e tenham um ano para tentar alcançá-lo.”

Diversos professores ouvidos por CartaCapital criticaram ainda o baixo valor do vale-refeição (4 reais por dia) e dos descontos da bonificação por faltas justificáveis, como licenças médicas e a chamada “licença-prêmio”, na qual o profissional é recompensado por não faltar nenhuma vez durante cinco anos. “No ano passado, tive de ficar afastado da escola por quatro meses em razão de uma cirurgia no joelho. E, neste ano, só pude receber dois terços da bonificação”, afirma Afonso, da Etec Getúlio Vargas, que lecionava disciplinas de eletroeletrônica antes de assumir a direção da escola.

Procurada por CartaCapital, a superintendente do Centro Paula Souza, Laura Laganá, alegou problemas na agenda ao recusar o pedido de entrevista. Por meio de nota, a assessoria de imprensa da instituição disse que “está em elaboração um novo Plano de Cargos e Salários para valorizar o salário dos professores”. As alterações de valores dependem, no entanto, de previsão orçamentária e aprovação na Assembleia Legislativa. Além disso, a nota informa que os parlamentares aprovaram, em 2008, um novo plano de carreira com reajuste médio de 49% no valor da hora-aula paga aos professores.

Especialista em avaliação, Luiz Carlos de Freitas, professor de Educação da Unicamp, contesta a própria existência da bonificação na educação pública. “Os reformadores empresariais acreditam que a educação é uma atividade como qualquer outra, passível de ser administrada pelos critérios da iniciativa privada. Ocorre que, no mercado, há ganhadores e perdedores, e os ganhadores não têm de se preocupar com os perdedores”, afirma. “No sistema de bônus, os testes ganham relevância extraordinária e acabam por corromper o processo social que tentam monitorar. Recentemente, Beverly Hall, superintendente do sistema educacional de Atlanta, na Geórgia (EUA), foi demitida após uma investigação que identificou fraude na avaliação de 58 escolas públicas. Em Nova York, John Klein deixou o cargo de superintendente, em junho de 2010, quando se descobriu que as altas notas que os alunos tiravam nas escolas estavam infladas. A escola não é uma pequena empresa.”

Jakob Von Gunten

JAKOB VON GUNTEN: um diário Robert Walser

"Na verdade, nós, discípulos ou pupilos, temos muito pouco que fazer, quase não nos dão tarefa nenhuma. Aprendemos de cor as regras que aqui vigem. Ou lemos o livro O que pretende a Escola Benjamenta para rapazes. Kraus, além disso, estuda francês por conta própria, porque línguas estrangeiras ou matérias semelhantes não integram nosso currículo. Temos uma única sala, que se repete sem cessar: "Como deve se comportar um rapaz". No fundo, nossa aula gira dessa única questão. Conhecimentos, não nos transmitem. Como já disse, faltam professores, isto é, senhores educadores e professores estão ou dormindo ou mortos; ou parecem estar mortos, ou petrificados - tanto faz, o fato é que não nos ensinam coisa nenhuma. Em lugar dos professores, que, por alguma razão singular, de fato parecem mortos ou cochilam, ensina-nos e nos governa uma jovem dama, a srta. Lisa Benjamenta, irmã do senhor diretor do instituto (...)" - Jakob Von Gunten: um diário de Robert Walser.

Grande ato contra os 47 anos do golpe reúne mais de 250 em São Paulo

“SIMBOLICAMENTE, COMEÇOU A HORA DE NÃO ESQUECER”


Grande ato contra os 47 anos do golpe reúne mais de 250 em São Paulo


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Fonte: http://www.ler-qi.org/spip.php?article2865

Na última sexta-feira, 1º de abril, o auditório da sede da APEOESP estava lotado. Com a presença de mais de 250 pessoas, realizou-se um comovente ato organizado pela LER-QI que teve como objetivo fundar uma nova tradição na esquerda, para colocar na ordem do dia a luta contra o golpe militar de 1964, contra a impunidade, pela abertura dos arquivos da ditadura e julgamento e punição de todos os torturadores e envolvidos, civis e militares, nos crimes da ditadura.

Com coordenação de Márcio Bárbio, professor da rede estadual e militante da LER-QI, a mesa foi composta pelo sociólogo e professor aposentado da USP Francisco (Chico) de Oliveira, Criméia de Almeida, sobrevivente da guerrilha do Araguaia e presa política durante a ditadura militar; Claudionor Brandão, demitido político da USP, diretor do Sintusp e militante da LER-QI e Gilson Dantas, médico, sociólogo, preso político durante a ditadura e militante da LER-QI.


Márcio Bárbio abriu o ato saudando a presença de toda a juventude e de todos os trabalhadores ali presentes, ressaltando tratar-se de um dia importante para dar passos adiante na necessária luta contra a impunidade, além de pedir uma salva de palmas em homenagem às lutas dos operários da construção civil que ocorrem nas obras do PAC que foi reprimida e teve a morte de três operários. Explicou aos presentes que foi convidado oficialmente junto à direção do PSTU do Rio de Janeiro que enviasse um representante dos 13 presos políticos do ato contra Obama que foi reprimido pela polícia do governador Cabral, para que pudéssemos aproveitar essa atividade e dar passos numa campanha nacional pela retirada de todos os processos que pesam sobre esses companheiros. Infelizmente não pudemos contar com nenhum companheiro visto que apesar de terem sido liberados da prisão estão impedidos de sair da cidade, ou seja, estão sitiados pelo governo Cabral e a justiça burguesa.

Tomaram a palavra para saudar o ato e expor suas opiniões o jornalista e escritor Celso Lungaretti, ex-preso político militante de direitos humanos; Miltão, do Movimento Negro Unificado; e Érico, da Liga Comunista. Dentre os presentes foram saudados o Professor Antônio Rago, da PUC-SP e da Fundação Santo André; a companheira Zezé, do Núcleo de Consciência Negra da USP, uma delegação de trabalhadores e trabalhadoras da USP e os diretores do Sintusp Marcelo Pablito, Diana Assunção e André Pansarini. O professor emérito João Adolfo Hansen, da USP, enviou desde a Califórnia uma saudação ao ato. Foi lida a saudação da Apropuc (Associação de Professores da PUC-SP) enviada pela professora Maria Beatriz Abramides, presidente da entidade. O ato também foi saudado por Heloísa Greco, do Instituto Helena Greco, de Belo Horizonte, Minas Gerais. Da Argentina, recebemos um vídeo com as combativas saudações de Elia Espen, das Mães da Praça de Maio, linha Fundadra, e de Victoria Moyano, filha de desaparecidos, integrante do Ceprodh e militante do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas).

Criméia Almeida iniciou as falas da mesa, aplaudida de pé pelo auditório, dizendo:“Parabenizo a promoção deste ato, e gostaria de pedir a vocês que continuassem a nossa luta, que é a luta pelo resgate da memória das vítimas desse país”. Também disse que “Se queremos liberdade, se queremos direitos, nós temos que se unir nessa luta pela abertura dos arquivos da ditadura”. Em seguida, o professor Chico de Oliveira afirmou que “Há 47 anos nós esquecemos a ditadura. A maior vitória da ditadura é este esquecimento. Este ato é muito importante porque ele está representando e dizendo que os derrotados não esquecerão. Quando os derrotados não esquecem, a coisa começa a girar. A derrota começa a mudar de lado. Este ato tem essa importância, que é sair do esquecimento, sair da sombra”. O professor encerrou sua fala dizendo: “Este é um ato simples, e o nosso público embora agradevelmente numeroso para um ato desse precisa ser muito mais, mas ele diz mais do que os que estão aqui. Ele diz que simbolicamente, começou a hora de não esquecer. Minha saudação aos companheiros da Liga pelo valor de sair da inércia e propor esse debate à sociedade brasileira. É disso que se trata se quisermos um dia poder com autonomia de classe contemplar o horizonte do socialismo”. Ambos expressaram seus pontos de vista sobre toda a temática do ato, que em breve estará na íntegra em nosso site. O auditório lotado, tendo à frente a juventude da LER-QI com uma importante delegação de estudantes e jovens trabalhadores de Franca, Marília, Rio Claro, Campinas, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Santo André respondeu combativamente: “Não esquecemos a ditadura, assassinatos e tortura!”.

Claudionor Brandão, ressaltou a ligação entre os tempos sombrios da ditadura e os resquícios desta forma ditatorial que sobrevivem até hoje, seja nos massacres à população pobre, seja na repressão policial às greves, nas ocupações militares nas favelas, ou na recente prisão de 13 manifestantes durante um ato contra a vinda de Barack Obama ao Brasil. Também denunciou a onda repressiva nas universidades estaduais paulistas, tendo ele como um dos principais perseguidos com sua demissão política pelo governo José Serra em 2008. Rafael Borges, pela juventude da LER-QI, chamou uma salva de palmas ao nosso camarada Polo Denaday, militante do PTS e jovem advogado do sindicato dos ceramistas de Neuquen e de direitos humanos que faleceu no último mês, e em seguida fez um entusiasmado chamado a todos os jovens que estavam naquele momento lutando contra a impunidade da ditadura passassem também a fazer parte de uma juventude revolucionária que luta pelos direitos democráticos, pela aliança operário-estudantil, contra o individualismo e a resignação da juventude, por uma verdadeira perspectiva revolucionária. Foi seguido pelos cantos combativos da juventude, que dizia "Pra acabar com a impunidade e punir torturador, abertura dos arquivos do regime repressor. U-NI-DA-DE, Unidade operário-estudantil, resgatando a memória nesse primeiro de abril".

Encerrando o ato falou Gilson Dantas, militante trotskista desde os anos 1960, num momento de auge do ato contra o golpe militar. Começou dizendo: “O que vou falar eu não li em livros de história. Nós que passamos por esse corredor polonês que foi a ditadura brasileira, falamos e sentimos ao mesmo tempo. Por isso vou me basear na história de um operário que viveu a ditadura e morreu nela, ele vai ser uma espécie de lembrete pregado no coração de cada um, porém escrito a sangue. É o operário Olavo Hansen, químico, que morreu em 1970.” Gilson resgatou a história de Olavo Hansen, militante trotskista na luta contra a ditadura, pela organização dos trabalhadores, para demonstrar que também na luta contra a ditadura havia distintas estratégias. “A estratégia mais brilhante que apareceu nesse país, era a estratégia proletária, organizando a classe trabalhadora, os aliados pobres, os camponeses, todos os oprimidos, negros, organizando um bloco com a classe operária como caudilho para colocar a ordem abaixo”.



Para explicar a história de Hansen, Gilson demonstrou como depois de assassinado pela ditadura seu ideal seguia vivo. “A primeira morte de Olavo Hansen foi física, morreu lutando e sonhando. Eu fui preso distribuindo panfletos contra a morte de Olavo Hansen. Quando a classe operária levanta a cabeça nas greves que Lula vai liderar, eis que Olavo Hansen se põe em movimento. Aí novamente ele morre, desta vez simbolicamente. Porque a classe se levanta, mostra potencial, uma transição pra outra coisa, com a sua cara, que não fosse costurada com a elite militar, buscando derrubar a ditadura com métodos proletários, mas nesse momento eis que costura-se um acordo por cima pra fazer uma transição pactuada onde o torturador vai ser igualado ao torturado, através da lei da anistia.”

O ato encerra-se com Gilson Dantas dizendo: “Este sistema policial não foi destruído, ainda que se avance na democracia formal. Eu encerro dizendo que é importante este ato amplo, mas vai ter ainda mais cor e brilho na medida que conseguirmos organizar nos locais de trabalho, em fábricas, na aliança estudantil e operária, um movimento que tenha o poder de fazer tremer esta maquina policial e este estado terrorista que está de pé.”

Marcio Barbio encerrou o ato chamando todos os presentes a se colocarem de pé para gritarem juntos: Companheiros e companherias presos, torturados, mortos e desaparecidos, presente! Este ato, infelizmente, foi o único organizado pela esquerda, mas desde a mesa até o plenário se expressou o propósito de que seja o início de um movimento nacional contra a impunidade, pela abertura dos arquivos da ditadura, apuração, julgamento e castigo para todos os torturadores, mandantes, financiadores e apoiadores dos crimes da ditadura. A LER-QI e sua juventude se colocam nesta perspectiva para ser parte de um grande movimento para cumprir essa tarefa histórica. Por que não esquecemos, seguimos combatendo a ditadura!


LEIA TAMBÉM: Olavo, Eremias, Juarez e os outros mártires nos legaram uma missão (Artigo de Celso Lungaretti sobre o ato contra o golpe militar de 1964)

SAUDAÇÕES AO ATO

Heloisa Greco (Bizoca) do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – Belo Horizonte, Minas Gerais

No quadragésimo sétimo aniversário do golpe militar não há como não repetir o óbvio: o Estado brasileiro continua detendo giganteso arsenal para o exercício da violência, acumulado em processo histórico de longa duração. Temos no prontuário mais de trezentos e cinqüenta anos de escravidão e mais de quinhentos anos de opressão aos povos originários, hoje em fase final de extermínio. Tivemos ainda vinte e um anos de ditadura militar sangrenta, que veio para consolidar o terrorismo de Estado. O aparelho repressivo ubíquo e tentacular então montado segue operando sob a égide da violência explícita: o Estado Penal vigente é o sucedâneo do Estado de Segurança nacional dele sendo tributário. É este o terrível legado da ditadura militar, a qual não fabricou, mas institucionalizou a tortura transformando-a em política de Estado. Institucionalizou também a cultura do sigilo, a estratégia do esquecimento, a mentira organizada e a destruição continuada do espaço público. Tal legado não foi sequer equacionado, como mostram as seguintes evidências: a permanência da tortura enquanto instituição consolidada; a guerra generalizada contra os pobres; a interdição do dissenso e a criminalização dos movimentos sociais; a questão dos mortos e desaparecidos políticos; a impunidade – e, mesmo, a inimputabilidade - dos torturadores e assassinos de presos políticos e daqueles que cometem os mesmos crimes nos dias de hoje; a proibição do acesso aos arquivos da repressão. Ainda não conquistamos o direito à verdade, ao passado, à história e à memória enquanto dimensão básica de cidadania, o que passa necessariamente pela construção de uma Comissão de Verdade e Justiça independente e popular. Estas evidências constituem exemplo expressivo da sobrevivência da ditadura militar no pessimamente chamado Estado democrático de Direito. Esta situação de barbárie é potencializada pelo racismo sistêmico, em pleno vigor nas esferas militar, policial, judiciária e carcerária, exatamente aquelas que compõem a também mal chamada Segurança Púbica. A manifestação escabrosa desta situação é a generalização da guerra contra os negros e os pobres, o que leva à poliítica de encarceramento em massa e ao extermínio sistemático da população jovem e negra - trata-se de genocídio sistêmico, chamemos as coisas pelo próprio nome. Concluo saudando a iniciativa das companheiras e companheiros da LER-QI e reiterando que para nós, do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania o combate a esta situação de barbárie é necessária e ontologicamente uma luta contra-hegemônica. Entendemos que a luta pelos direitos humanos só pode ser travada na perspectiva classista da construção de mecanismos de contrapoder, contradiscurso e contramemória. A sua essência é o princípio da radicalidade. Como nos versos do nosso grande Carlos Drummond de Andrade: Do lado esquerdo carrego todos os meus mortos, Por isso caminho um pouco de banda. Saudações libertárias, um abraço fraterno para todas e todos, Heloisa Greco/ Bizoca (p/ Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania / IHG). Belo Horizonte, 1 de abril de 2011

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Maria Beatriz Abramides, presidente da APROPUC


A APROPUC-Associação dos Professores da PUC-SP vem saudar a iniciativa da LER-QI na realização deste importante debate, bem como a tod@s que estão presentes, debatedores e participantes deste ATO CONTRA O GOLPE MILITAR DE de 1964 e que repudia os 47 anos de impunidade contra os crimes da ditadura neste país. Nós militantes, trabalhadores, estudantes devemos continuar combatendo a ditadura o que significa lutar pelo fim do pacto da anistia de 1979, pelo fim dos pactos institucionais que "em nome da verdade" só a escondem. Lutar pelo fim da impunidade pressupõe a exigência de que todos os documentos do período da ditadura militar sejam abertos e os torturadores sejam denunciados e punidos. Neste momento prestemos uma homenagem a tod@s os lutadores que foram mortos pela ditadura militar e aos que sobreviveram e continuam aqui na luta pelo direito à memória e a verdade e por uma sociedade socialista, emancipada. Professora Bia Abramides, pela APROPUC.

Biutifiul.

Finalmente, Biutiful! Há meses, desde que fui seduzido pelas críticas (mais especificamente desde Cannes), venho tentando assisti-lo. Procurei, desesperadamente, um arquivo descente na internet, que pudesse baixar e assistir, porém todas as tentativas foram frustradas pelas péssimas imagens. Mas hoje, em meio ao aperto desses dias, consegui ir ao cinema (consciente que logo o filme sairia de cartaz). E fui preparado para receber um soco no estômago e sair com uma angustia da vida.

O filme de Alejandro Gonzalez-Inarritu (Amores Brutos, 21 gramas, Babel) tem como tema central a morte. Ela está por todos os lados. Num cenário fúnebre, sujo e caótico, a vida vai se ajeitando - ou tentando se ajeitar. Todos, ou praticamente todos, caminham para a  morte, deixando para trás suas dívidas.

O diretor parece ter deixado uma dúvida nos críticos de plantão sobre a sua ligação com o espiritismo, pois o persongem principal conversa com os mortos e os ajuda a seguir seu caminho do "outro lado" da vida. Para mim, o objetivo do diretor é ressaltar a passagem, a transição, a mudança. A vida concreta tornou-se o inferno, o castigo na terra, o cenário de Dante. Nenhuma alma, ou quase nenhuma, consegue livrar-se dos pecados, por mais bondosa que pareça. A salvação, a paz, está na morte, no fim.

A morte é a metáfora de uma sociedade efêmera, que ainda não sumiu e persiste em seguir existindo. É o mundo do trabalho precário, exercido por imigrantes ilegais, chineses e africanos, na prometida terra europeia. É o mundo regido pela lógica de um capitalismo decadente, em que as vidas valem muito pouco. Um mundo em que a única paz está na morte e não na vida. Um mundo que precisa perecer.

Todo apoio a luta da moradia na Unicamp! Basta de repressão! Vagas e bolsas para todos que necessitam!

Publicamos texto de Fernando e Danilo sobre a ocupação da administração da Moradia da Unicamp.

por Fernanda Montagner e Danilo Magrão – estudantes de Ciências Sociais e militantes do Bloco Anel às Ruas


Nessa terça, dia 2 de março, a REItoria da Unicamp, fazendo uso da Tropa de Choque com camburões e escopetas, buscou fazer cumprir uma ordem judicial de desocupação de uma casa da moradia estudantil por existirem estudantes “não oficiais” dentro das casas. Na Unicamp, assim como em diversas universidades do país, a quantidade de vagas é insuficente frente a quantidade de estudantes que necessitam. Após a ameaça de terça, nessa quarta de manhã a tropa de choque de punho armado desocupou a casa já então ocupada por uma centena de estudantes amparados pelas barricadas levantadas para impedir o desalojamento pela polícia, mantendo, assim, um clima que remonta aos ares mais duros da ditadura, ratificado pela manutenção de um regimento interno análogo ao “AI-5 estudantil” (decreto 477), de 1969.

Os estudantes fizeram uma reunião depois do ocorrido e decidiram por ocupar a Administração da Moradia Estudantil, que se mantem ocupada com reivindicações centrais por mais vagas na moradia, em denúncia a entrada da polícia e pela demissão de Viotto, administrador da moradia e lacaio da reitoria na perseguição de estudantes.

Devemos ater que a política repressiva da REItoria da Unicamp, que se manifesta contra os estudantes, se desenvolve em paralelo aos ataques aos trabalhadores: não só administrativa, mas também judicialmente, a reitoria pretende punir nove trabalhadores que encabeçaram a greve do ano passado, além de já anteriormente ter punido os trabalhadores com os salários descontados referentes aos dias paralisados.

O fato pontual, ao contrário do que pode parecer a olhos nus, não foi arbitrário. É expressão dos ritmos em que progride a implementação de um claro projeto político da REItoria de uma maior privatização das Universidades públicas e elitização do conhecimento ligado à lógica capitalista de mercado; o que passa pela falta de políticas de permanência estudantil que atendam ao conjunto de estudantes que necessitam; por uma restrição do uso do espaço público e da vivência universitária; corte de isonomia salarial entre funcionários e docentes das estaduais paulistas (na Unicamp, perseguição aos trabalhadores por exercerem o direito elementar de greve e descumprimento dos acordos de final de greve por parte da REItoria; na USP, a demissão de 270 trabalhadores logo no início do ano pelo interventor Rodas); intervenção rotineira da polícia militar nos campi (inclusive na Unesp de Rio Claro, que contou com a participação da PM nas calouradas); e a abertura de processos administrativos contra os estudantes da USP que retomaram a moradia etc.

Além disso, esse projeto do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (CRUESP) vem embasado numa lógica do governo estadual do PSDB, que já vem atacando as Universidades Estaduais a tempos e progredindo cada vez mais a intensidade e a rapidez do atrelamento da universidade ao capital privado. Evidentemente o governo federal de Dilma também dá toda a base para esse projeto de precarização da educação pública, pois se a porcentagem de ICMS repassado para o investimento para a universidade não aumenta há anos, por outro lado o governo federal não exita também em dispender bilhões de dólares para pagamento de dívida externa – em detrimento do investimento de questões elementares como educação pública(repassando milhões de reais para grandes grupos privados, como o grupo Anhanguera), que mais além de toda a propaganda de Dilma e Lula, hoje o ensino superior em nosso país não atende sequer 15 % da população. O elitismo é tamanho que mesmo com o funil do vestibular, que impede que a maioria da juventude trabalhadora e pobre possa ter acesso ao ensino superior público, os poucos jovens filhos de trabalhadores que conseguem adentrar na Universidade pública não possuem condições financeiras e de habitação para o estudo. A falta de bolsas e vagas nas moradias estudantis não é um problema localizado da Unicamp, mas generalizado em todo o país, com a conivência e implementação dos burocratas(reitores e diretores), que buscam a todo custo combater a organização dos estudantes como temos visto nos últimos anos no estado de SP e pelo país.

Esta política coordenada de repressão nas estaduais paulistas tem sua manifestação particular, em relação aos estudantes da Unicamp, na falta de moradias correspondentes ao número de estudantes de baixa renda que necessita de serviço prestado. Em acordo firmado em dezembro de 1987, a REItoria prometeu 1500 vagas ao término de dois anos, caso contrário “resultará na imediata autorização ao DCE/ Unicamp, para ocupar uma área do campus desta Universidade, equivalente ao espaço anteriormente ocupado pelos alunos no prédio do ciclo básico”. A hipocrisia da promessa resulta atualmente, 24 anos depois, em uma quantidade de vagas inferior a mil – sendo que hoje existem o dobro de estudantes do período citado. Não bastasse, a administração da moradia ainda toma medidas muito autoritários com setores mais oprimidos na moradia, como nos casos de tentar expulsar os estudantes africanos (reforço claro do racismo e elitismo desta Universidade), bem como estudantes mães, cujos filhos completaram sete anos etc.

Assim, é necessário entendermos que o que está colocado em jogo nesse processo é um projeto privatista de universidade, que não tem hesitado em atacar e reprimir o movimento estudantil e trabalhadores. Necessitamos articular uma ampla campanha democrática dos diversos setores que vem não naturalizam as ingerências da Policia Militar no campus, bem como as manobras da reitoria para ligar a universidade cada vez mais as empresas e se desligarem das demandas concretas dos estudantes, trabalhadores e da população de conjunto. É necessário que, a partir de uma campanha ampla, consigamos colocar o movimento estudantil na ofensiva - que se ligue aos trabalhadores e professores aliados - e avance em questionar o caráter da universidade, para que possamos dar passos no sentido de uma democratização radical no acesso da universidade e que esta volte seus interesses para os trabalhadores e ao povo pobre.



.Por um plano de obras que atenda plenamente as demandas reais dos estudantes que necessitam de moradia!Vagas e bolsas a todos que necessitam!

.Controle da moradia pelos moradores e entidades estudantis(DCE e Centros Acadêmicos). Auto-organização dos estudantes para decidirem os critérios e rumos das moradias. Fora ingerência da burocracia acadêmica!

.Barrar com ampla mobilização o processo de repressão aos lutadores! Fora PM dos campi!

.Por um comitê de mobilização em aliança dos estudantes com os funcionários!

.Barrar as demissões de trabalhadores na USP e a expulsão de estudantes. Reintegração imediata de Brandão! Contra os processos e sindicâncias contra trabalhadores e estudantes abertos na UNICAMP, USP e Unesp!

. Fim do vestibular e estatização dos monopólios universitários particulares para garantir a real democratização do acesso a Universidade!

Estudantes, às ruas!

Na manhã de hoje, estudantes das escolas de ensino médio de Campinas saíram as ruas para protestarem contra o abusivo aumento da passagem de ônibus (2,85). Como bem sabem, o transporte coletivo da cidade é caótico: todos os dias somos obrigados a nos espremer em ônibus desumanamente lotados; não podemos confiar nos horários das linhas, pois os ônibus estão sempre atrasados; gasta-se cerca de duas a três horas para atravessar de uma ponta a outra da cidade; etc.

De quem é a culpa disso tudo? Dos motoristas e dos cobradores de ônibus? Claro que não. Estes, infelizmente, trabalham mais de dez horas por dia (em seus turnos de oito horas mais horas extras que são obrigados a cumprir por livre e espontânea pressão), no calor infernal da cidade, ganhando uma miséria. Caso você duvide disso, sugiro aproveitar a próxima vez que passar pela catraca para perguntar ao cobrador sobre as suas condições de trabalho.

Os culpados são as empresas privadas que controlam o transporte coletivo, e como toda empresa capitalista, para aumentar seus lucros ao máximo, racionalizam também ao máximo as linhas de ônibus. Desta forma, os passageiros são apenas números nas pranchetas de engenheiros de trânsito e administradores que nunca usaram o transporte coletivo para se locomoverem. A culpa é também do Dr. Hélio, Prefeito da cidade, que opta por manter este sistema de transporte coletivo privado (dizem as más línguas que ele e seus aliados receberam das empresas de transporte de Campinas gordas ajudas as suas campanhas eleitorais).

A luta destes estudantes é legítima e deve se estender para todas as camadas da população trabalhadora. Devemos sim lutar para reduzir a passagem; mas devemos também lutar por um controle social dos serviços essenciais da população: transporte, saúde, educação, etc. Pode ser que não consigamos reduzir, neste momento, o valor da passagem. E com certeza teremos que ampliar e muito nossa mobilização para conquistar a estatização do transporte coletivo. Mas uma coisa estes estudantes estão conquistando: a organização política e a tomada das ruas enquanto forma legítima de manifestação popular.

Todo apoio e força à luta estudantil!

Reestreia...

Mal iniciamos o ano letivo e de cara já fui cobrado por vários alunos pela falta de atualização deste Blog. Devo reconhecer que faz alguns meses que não posto nada. Deixei-o secundarizado enquanto instrumento de divulgação das minhas ideias ou das dicas culturais que costumo dar,  talvez porque tenha sido contagiado pela onda avassaladora do Facebook (com 500 milhões de usuários, ele mereceu até um filme, indicado agora ao Oscar, mas, diga-se de passagem, na minha opinião, medíocre), pois é um instrumento mais fácil de postar pequenas observações, principalmente as indicações de filmes - com a vantagem de anexar os traillers e de atingir instantaneamente centenas de pessoas (a maioria meus alunos) com um simples toque. Aqui conto com a vontade de cada um em acessa-lo. No entanto, a cobrança amigável dos meus alunos por atualizar esse meio me empolgou a voltar a escrever em sua tradicional coluna vertical! Fica então aqui minha reestreia.

Uma dica de filme:
La teta asustada (O leite da amargura)
direção: Claudia Llosa
Peru, 2009.
O filme concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas perdeu para o argentino "Os segredos dos seus olhos". Este ultimo, realmente, é muuuuiiiitttttoooo bom!

Cena do filme, La teta asustada.

Lançamento: